A edição de hoje é para te incentivar a não desistir da corrida. Eu sei, estamos nos primeiros treinos da planilha, isso nem deve ter passado pela sua cabeça. Mas sentir-se desmotivado é algo que acontece entre corredores com mais frequência do que a gente imagina.
Falta de tempo, preguiça de levantar da cama, chuva, um resfriado leve… Tudo vira desculpa para deixar de ir e, aí, quando você percebe, parou de correr. Eu sei bem, porque já fiz isso várias vezes.
Luisa Alcantara e Silva
Jornalista pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduada em direitos humanos, responsabilidade social e cidadania global pela PUCRS, começou a correr em 2008.
Você se anima ao comprar um tênis para correr, mas logo desanima porque não satisfez três necessidades psicológicas, segundo Fábio: autonomia, competência e vínculo social. Entenda o que é cada uma:
Autonomia: é a capacidade de fazer escolhas e sentir-se no controle da atividade. Exemplo da falta dela: não consegue aumentar sua velocidade.
Competência: está ligada à percepção de capacidade e sucesso no exercício. Exemplo da falta dela: acha que não consegue correr bem, ou sente muita dor.
Vínculo social: é o exercício como um momento de interação com outras pessoas. Exemplo da falta dela: esperava fazer amigos ou ter companhia, mas está sempre correndo sozinho.
Essas sensações podem te desmotivar, mas trago uma boa notícia: há estratégias para reverter o quadro e manter a constância dos treinos. Então, vamos a elas:
1. Não se compare com outros corredores
A principal métrica de velocidade da corrida é o pace, ou ritmo, que é o tempo que leva para percorrer 1 km. Usar ele como métrica de comparação é uma armadilha para quem está começando.
Compare-se com você mesmo. Não se compare a aquele perfil na rede social ou ao amigo que corre mais rapidamente
Fábio Dominski
Profissional de educação física com doutorado em psicologia do exercício
Ao fazer uma prova de 5 km, por exemplo, entenda que não tem problema caminhar. Um dia você vai ter autonomia e conseguir fazer todo o percurso correndo, mas é preciso paciência.
2. Normalize as dificuldades
“Embora a gente tenha bons exemplos de pessoas correndo nas redes sociais, elas são uma vitrine perigosa", afirma Fábio.
Faça uma reflexão rápida: já viu quantos posts publicados sobre quem deixou de treinar porque estava com preguiça? Poucos ou mesmo nenhum, não?
“A gente às vezes não consegue fazer o exercício, e temos que normalizar isso", diz o profissional. Falhar é esperado no processo de criação de hábitos (o importante é voltar depois).
3. Faltou? Não deixe de ir no outro dia
Não se culpe se tiver que faltar do treino, mas não deixe isso se tornar uma bola de neve.
“O importante é a pessoa não entrar na cadeia de pensamento de, se não fui hoje, não vou mais", afirma Duda Rea, psicóloga do esporte.
4. Procure uma companhia
Sabe a história do vínculo social? Se está correndo sozinho e se sentindo desmotivado, busque parceiros de corrida. Eles não aparecem do nada.
Pode combinar com um amigo que mora perto, com um vizinho ou entrar em uma assessoria esportiva. E importante: nesse início, não adianta encontrar alguém que corre em um ritmo muito diferente do seu.
A professora aposentada Adinalva de Jesus, 60, fez amigas para além da corrida. Ao participar do projeto Vida Corrida, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, ela conheceu um grupo de mulheres com quem sai para passear e se divertir também.
“A gente vai tomar sorvete, café, vai ao shopping, são amigas que levo para vida", diz Adinalva.
Para Maria de Fátima Nascimento Araújo, 36, que também participa do projeto, esses vínculos têm função terapêutica.
Ela costuma passar o dia em casa, cuidando do filho caçula, que é autista. Como convive bastante com mães de crianças atípicas e com deficiência, Maria de Fátima diz que a corrida três vezes por semana permite que ela fale sobre outros assuntos.
“A corrida mudou minha vida. É um momento só meu, em que posso trocar ideias com amigas e pensar mais em mim", afirma.
5. Tenha um objetivo
Essa é a dica que todos os treinadores dão. Ter um objetivo ajuda a ter disciplina e a não desanimar.
"Pode ser uma prova, mas pode ser também ter a meta de correr dois quarteirões sem caminhar", afirma Daniel Neves, profissional de educação física.
Isso realmente funciona. Para compartilhar minha própria experiência: os períodos em que me senti mais motivada nesses anos todos correndo foram quando eu tinha uma meta.
No meu caso, fazer provas ajuda muito. Já corri quatro meia maratonas e, apesar de hoje isso parecer distante para mim, lembro que cumpria a planilha de treinos, me alimentava melhor e seguia os exercícios de fortalecimento sem nem reclamar.
6. Corra ao ar livre
“O esforço ao correr é, muitas vezes, desgastante, e isso pode desmotivar", diz Fábio. Correr em meio à natureza é uma ótima estratégia para driblar a desmotivação. O ambiente pode ajudar a distrair do cansaço.
Além disso, de acordo com o profissional, a prática de exercício na natureza é um grande aliado da saúde mental. “Há pesquisas que mostram que esse contato melhora questões como ansiedade e depressão", relata.
7. Mude a rota
Outra dica quente é não fazer sempre os mesmos trajetos. No parque Ibirapuera, em São Paulo, por exemplo, pode correr em volta do lago, no chão de asfalto, ou ir à pista de terra. E, mesmo nesses locais, dá para alternar caminhos.
Mora em Salvador? A orla da Barra é um bom local para correr. Dá para variar os percursos. Um dia, vá pelo calçadão; no outro, pela areia. Depois misture os dois ou vá por dentro do bairro.
O objetivo é variar, para não ficar cansado do mesmo trajeto.
8. Ouça música
Ouvir algo que gosta é uma forma poderosa de se distrair do esforço e da percepção do tempo.
Quando comecei a correr, fiz uma playlist –ainda era no iPod, alguém lembra?– com muitas faixas de Chico Buarque, Maria Bethânia e Caetano Veloso. Sou apaixonada pelo trio, mas, convenhamos, se quer algo animado, há opções melhores.
Foi impressionante quando troquei MPB por rock. Com Rolling Stones e AC/DC no fone, passei a ter mais ânimo e correr de forma mais rápida.
Perder alguns minutinhos montando uma boa playlist pode tornar o momento muito mais prazeroso. Mas, para você não gastar tempo, criei uma no Spotify como sugestão para te acompanhar nos próximos treinos. Espero que goste!