Aqui no Brasil, temos sentido na pele as ondas de frio. Em junho, mais de 70 cidades registraram temperaturas negativas no Rio Grande do Sul. Santana do Livramento foi a cidade mais gelada, com -7,3°C. E quando a mídia destaca esses dias de baixas temperaturas, os negacionistas do aquecimento global aproveitam para atacar a ciência com teorias da conspiração sem qualquer embasamento. Ao contrário do que eles acreditam, episódios extremos de frio também são consequência das mudanças climáticas. E representam mais uma evidência clara de que o aquecimento global é uma realidade incontestável. Mas por que ocorrem invernos extremos se o planeta está aquecendo? De fato, houve algumas regiões do planeta que tiveram alguns invernos mais severos na última década, mas estes são aumentos de curto prazo, que refletem a variabilidade climática natural. As tendências de longo prazo mostram que os invernos com frio extremo estão se tornando menos frequentes, e isso é consistente com o aumento das temperaturas globais causadas pelas mudanças climáticas. Os recordes globais de calor superam os de frio. Nos últimos anos, vemos quase todos os dias os eventos extremos climáticos ceifando vidas, como as ondas de calor recentes na Europa e as enchentes que devastaram o Texas nos EUA. O aquecimento global é comprovado por medições de dados climáticos e ambientais e análises sofisticadas. Dados da NASA, mostram que os últimos dez anos, foram os mais quentes já registrados desde 1880. Além disso, nas últimas décadas, dias com recorde de temperatura máxima têm sido mais frequentes do que dias com recorde de mínima. Por exemplo: nos EUA, nos últimos 20 anos, os picos de altas temperaturas têm acontecido com frequência duas vezes maior do que os de baixas temperaturas. Independentemente da região do planeta, não se observa um aumento global nos invernos frios, em tendências de longo prazo. A atmosfera é um sistema que tem um padrão de equilíbrio bastante sensível. Quando injetamos mais energia por meio do aquecimento global, podemos gerar instabilidades, que fazem com que eventos extremos de calor e de frio e tempestades severas se tornem mais frequentes e mais energéticos. Por exemplo: furacões e tornados ocorrem para que a atmosfera dissipe a energia excedente e volte ao estado normal, estável. Como diz o ditado popular: depois da tempestade vem a calmaria. Um dia mais quente no Ártico pode levar frio para a Europa e a América do Norte já que o aquecimento global acaba fazendo com que o ar frio, antes concentrado no círculo polar, se espalhe por estas regiões. Em 2024, ondas de frio que atingiram os EUA foram explicadas pela combinação de aquecimento do Ártico e desestabilização do vórtice polar. O aquecimento do Ártico, que ocorre de forma quatro vezes mais rápida que o resto do planeta, altera o vórtice polar, um cinturão de fortes ventos de ar frio acima do Polo Norte. Em condições normais, esse vórtice mantém o ar frio dentro da região polar do Norte. Mas, com o aquecimento do planeta, o vórtice enfraquece e se expande, influenciando o caminho da corrente de jato, um fluxo de vento rápido e forte que fica nos baixos níveis na atmosfera, empurrando o ar frio do Ártico para latitudes mais baixas. Ou seja, o ar muito frio do Polo Norte escoa para a Europa, Canadá e EUA. Estas mudanças também induzem para que o ar mais quente atinja os polos batendo recordes de temperatura nas regiões do Polo Norte e do Polo Sul e nas altas latitudes de todo o planeta. Eventos extremos, como a recente onda de frio no Brasil, são influenciados pelas mudanças climáticas. No Brasil, extremos de frio são menos intensos que no Hemisfério Norte porque a nossa distância em relação à Antártida é muito maior do que a distância do Canadá e dos EUA em relação ao Ártico. Além disso, nosso clima tropical torna os invernos naturalmente mais amenos aqui. Aqui no Hemisfério Sul, o aquecimento global causa o derretimento das geleiras na Antártida, aumentando a probabilidade de eventos climáticos extremos, incluindo ondas de frio. A Antártida interfere nisso por meio da Oscilação Antártida, um fenômeno natural que influencia a circulação atmosférica e a formação de frentes frias. Essas massas de ar geladas podem se deslocar para o Brasil causando quedas drásticas nas temperaturas, chuvas, geadas e neve, particularmente o Sul e Sudeste do país. Além disso, um rápido aumento da temperatura na Antártida pode causar a diminuição da circulação de ventos, levando a ondas de frio no Brasil, causando temperaturas baixas. As mudanças climáticas também podem impactar na formação e no desenvolvimento de ciclones extratropicais — sistemas de baixa pressão atmosférica que surgem principalmente nas latitudes médias pelo contraste entre massas de ar quente e fria, que podem causar neve. A Antártida é uma região de extrema importância para o clima global. Existem três preocupantes pontos de não retorno que podem ser ultrapassados devido ao aquecimento global: o colapso da camada de gelo da Antártida Ocidental, o colapso das bacias subglaciais da Antártida Oriental e o colapso da geleira da Antártida Oriental. Elas podem alterar substancialmente e perigosamente os padrões de circulação atmosférica. |