🌎 Quando o mundo entra em conflito, os mercados entram em movimento
Gustavo Sung
Economista-chefe
Ao longo da história, episódios de tensão geopolítica têm exercido influência relevante sobre os mercados financeiros globais. Eventos como o ataque de 11 de setembro, a guerra entre Rússia e Ucrânia e, mais recentemente, a escalada das tensões no Oriente Médio ilustram como fatores exógenos à economia podem provocar movimentos abruptos nos preços dos ativos, alterando expectativas e decisões de investimento.
O principal canal de transmissão desses choques é o aumento da incerteza. Em um ambiente mais incerto, empresas adiam investimentos, consumidores postergam decisões de consumo e investidores reduzem exposição a ativos de maior risco. Esse movimento se traduz em maior volatilidade nos mercados e, muitas vezes, em revisões negativas para o crescimento econômico.
A literatura econômica buscou, inclusive, mensurar esse fenômeno. O Índice de Risco Geopolítico (GPR), desenvolvido por economistas do Federal Reserve, mostra que elevações nas tensões internacionais estão associadas a menor crescimento e pior desempenho dos mercados acionários.
Do ponto de vista dos ativos, há padrões relativamente recorrentes. O primeiro deles é a reação das commodities, especialmente o petróleo. Por envolver cadeias globais sensíveis a conflitos, sobretudo em regiões estratégicas, seus preços tendem a responder quase imediatamente ao aumento da incerteza, ainda que parte desse movimento se dissipe ao longo das semanas.
Além disso, observa-se o fortalecimento do dólar em momentos de maior aversão ao risco, refletindo a busca por ativos seguros, o chamado flight to quality. As taxas de juros de longo prazo, por sua vez, podem oscilar entre queda, pela demanda por proteção, e alta, quando o choque implica pressões inflacionárias, como no caso de elevação dos preços de energia.
Nos mercados acionários, a reação tende a ser mais intensa em economias emergentes. Enquanto o S&P 500 costuma apresentar maior resiliência, refletindo a robustez do mercado americano, países como o Brasil enfrentam maior volatilidade e saída de capitais, dada sua maior sensibilidade ao ambiente externo.
Outro canal importante é o da logística global. Embora menos imediatos que o petróleo, os custos de transporte e frete tendem a permanecer elevados por mais tempo, refletindo ajustes nas rotas comerciais e nas cadeias de suprimento, o que contribui para pressões inflacionárias adicionais.
Nesse contexto, os desdobramentos para a política monetária ganham relevância. Um novo choque de energia pode dificultar o processo de desinflação global, levando bancos centrais a adotarem uma postura mais cautelosa, com ciclos de cortes de juros mais lentos ou limitados.
Apesar dos impactos negativos no curto prazo, a evidência histórica indica que os mercados tendem a se ajustar ao longo do tempo. Após uma reação inicial mais intensa, os ativos frequentemente se recuperam à medida que as incertezas se dissipam e os efeitos econômicos se tornam mais claros. O comportamento do Ibovespa ao longo das últimas décadas ilustra bem esse padrão: mesmo diante de sucessivos choques, crises globais, eventos políticos e episódios geopolíticos, observa-se uma trajetória de valorização no longo prazo.