
Se 2026 fosse resumido em uma palavra, provavelmente seria intensidade. Em poucas semanas, o mercado precisou absorver uma sucessão incomum de eventos políticos, geopolíticos e monetários — dentro e fora do Brasil.
De início, o contexto geopolítico voltou aos holofotes, com conflitos envolvendo Venezuela e Oriente Médio.
Nos Estados Unidos, tarifas de importação foram invalidadas e renovadas em poucos dias. Na política monetária, um novo presidente foi indicado ao Federal Reserve (Fed).
Diante dessas mudanças e da revisão de perspectivas por parte dos investidores, empresas ligadas ao setor de tecnologia — mais especificamente software — sofrem forte correção de dois dígitos. Enquanto isso, a migração de recursos continua, e o dólar tem sido uma das vítimas desse movimento.
No Brasil, o cenário — influenciado por essa conjuntura — é bastante distinto. A entrada de capital estrangeiro na bolsa segue forte, com quase R$ 40 bilhões aportados no ano.
A perspectiva de eleições mais disputadas também tem animado os players locais, na margem. Além disso, o início do ciclo de corte de juros está previsto para março.
Com isso, o Ibovespa sobe 18% no acumulado do ano, o maior resultado para o bimestre em mais de 20 anos — lembrando que tivemos o Carnaval nesse meio-tempo.
E os fundos imobiliários? Diferentemente do mercado de ações, os fundos imobiliários registraram performance mais tímida em 2026, com alta próxima de 3% para o Índice de Fundos de Investimentos Imobiliários (IFIX).
Entre os motivos dessa performance, destaco a predominância do investimento estrangeiro nas empresas listadas, fator que influencia apenas parte do mercado de FIIs.
Ademais, citaria dois fatores secundários. Há possivelmente um efeito decorrente do recuo mensal dos proventos anunciados em janeiro — movimento sazonal na indústria, proveniente da obrigatoriedade de distribuição semestral. Cerca de 25% dos integrantes do IFIX reduziram rendimentos no período.
Por fim, destaco o efeito pontual de potencial pressão vendedora sobre determinados fundos que realizaram emissões privadas nas últimas janelas.
O modelo de aquisição via “troca de cotas” pode promover concentração de passivo em alguns casos. Mesmo quando existem cláusulas de restrição à negociação, a simples expectativa de estoque a ser alienado pode gerar impactos de mercado.
Em termos relativos, nota-se que os FIIs ficaram para trás. Embora nem tudo configure oportunidade na indústria, interpreto que o início do ciclo de cortes de juros abre espaço para a montagem gradual de posição na categoria.
IFIX: quem largou na frente e quem ficou para trás Olhando para o panorama setorial, os fundos de escritórios assumiram a liderança em 2026, com retorno médio de quase o dobro do IFIX.
Nesse caso, observamos certa discrepância de performance entre os integrantes da categoria, com recuperação mais intensa daqueles que encerraram o ano passado negociando a descontos excessivos.
Ainda nesse segmento, vale destacar o
recente anúncio do Santander Brasil sobre a mudança de sede corporativa, em uma transação emblemática com potencial de área construída de 100 mil metros quadrados. Uma eventual aceleração no ritmo de M&A deve continuar trazendo fôlego adicional aos FIIs de lajes corporativas.
Também merece destaque o segmento de shopping centers neste início de ano. Além da performance operacional satisfatória, alguns fundos do setor — como Patria Malls (PMLL11) e Hedge Brasil Shoppings (HGBS11) — divulgaram movimentos de reciclagem de ativos com geração de ganho de capital.
O setor tradicionalmente se beneficia de ciclos de queda de juros, funcionando como veículo eficiente de captura de valorização imobiliária.