
Peço licença para contar uma história um tanto quanto pessoal, mas pertinente para um dia como hoje. Trata-se de um dos momentos mais constrangedores pelos quais já passei.
Eu tinha acabado de pedir demissão de um emprego e estava no RH da firma cuidando da papelada antes de ir embora. A meu lado, uma amiga de longa data tentava me dissuadir da decisão quando sem querer bateu o olho em um documento no qual aparecia meu salário.
"Mas como assim? Você ganha bem mais que eu." Tive que deixar um pouco de lado meu pedido de demissão para entender o motivo da indignação dela, mas a ficha não tardou a cair.
Havíamos entrado na empresa com poucos meses de diferença, tínhamos praticamente o mesmo tempo de casa, trabalhávamos na mesma equipe, nossa função e nossas responsabilidades eram praticamente as mesmas.
Por que então, quando virava o mês, eu recebia um salário consideravelmente maior que o dela?
Não era preciso ser um gênio para chegar à resposta. Eu ganhava mais do que ela pelo simples fato de ser homem.
Até aquele momento, nunca havia me passado pela cabeça a possibilidade de que a empresa onde eu trabalhava mantivesse uma política como aquela. Tão arcaica e tão real.
Senti vergonha. Não sei dizer o que ela sentiu. Revolta, raiva e indignação foram apenas alguns dos sentimentos que ela extravasou em seguida por causa do meu privilégio. Meu e de todos os homens que trabalhavam ali, certamente.
Casos como este, infelizmente, não são exceção. Segundo o cálculo mais recente da Organização das Nações Unidas, a humanidade vai precisar de 300 anos para atingir a igualdade de gênero em sua plenitude.
De qualquer modo, passou da hora de chamar quem tem lugar de fala nessa luta. Na reportagem especial desta quarta-feira, Dia Internacional da Mulher, a Liliane de Lima mostra um outro lado dessa história:
o de empresas que estão ampliando a quantidade e a qualidade dos benefícios com vista à retenção de talentos femininos em suas fileiras.